24.6.09

SKY AS THE LIMIT

Retomando o meu jogo de computadores e na condição de Prainha, a aventureira, se o nível 1 foi debaixo de água, o nível 2 foi no outro extremo - acima das nuvens.

O que eu não contei foi que quando conheci Tina ela ia a caminho da agência de viagens marcar a subida dela ao topo do Kinabalu. Quando dei por mim, estava a aceitar mais um desafio, subir a montanha, e, sim, essa mesma, a montanha dos 4095m.

No dia do tão afamado jantar descobrimos que Jackie e Charlote iriam fazer a caminhada também e resolvemos juntarmo-nos as 4. O grupo estava super animado... Ia ser uma experiência partilhada por pessoas que viajavam a solo como eu. A partida seria no dia seguinte às 7 da manhã de táxi para a base do parque que ainda se situava a 1h30 de KK.

Tudo preparado, água, lanterna, luvas e gorro, fora capa da chuva e coisas afins para a subida que se seguia. Conhecemos o nosso guia e todas equipadas, até de 'bengala', encaminhávamos para a nova aventura. Hora de partida - 10h30 da manhã, altitude - 1866m.

Não é preciso ser um craque a matemática para perceber que me predispunha a subir nada mais nada menos que 2229m, isto num percurso de 8km. Ora até vos fazia um esqueminha com trigonometria para perceberem os ângulos de declive, mas julgo que será desnecessário. Lembrem-se das curvas da Serra da Estrela para subirmos aqueles metros e metros. Agora imaginem subir da base da Serra até à Torre mas a pé e a pique, eu diria, aproximadamente 27% de declive, para ser mais precisa. Ou aliás, começar a caminhada na Torre em direcção ao céu...

A subida ironicamente começava com uma descida. Um caminho de pedras, uma cascata, uma floresta verdejante e um nevoeiro que lhe dava um ar meio mágico e misteriosa. A partir daí um caminho interminável sempre a subir, os degraus iam aumentando, chegando a atingir os 40cm...
Ao fim dos primeiros 10 minutos e duma centena de degraus senti-me sem fôlego, tive de parar, os músculos das pernas latejavam e a mochila já começava a dar de si nas minhas costas. À frente Jackie ensinava-nos como devíamos subir - em zig zag.

Os 10 minutos deram lugar a 30 minutos e as metas estabeleceram-se, primeira paragem ao km 2, lanche no km 3 e almoço no km 4. O tempo passava, 1 hora, 2 horas... O cenário alterava-se, à medida que íamos subindo a lama dava lugar a pedras e os degraus tornavam-se mais estáveis. A vegetação tornava-se menos densa e a fauna começava a diminuir. Os esquilos teimavam em seguir-nos em busca de comida, porém.

No caminho alguns cruzamentos com outros andarilhos. Já na descida, confirmavam que valia a pena a subida e que não nos íriamos arrepender, mas ficou-me na dúvida se o fariam por piedade ou mesmo de encorajamento...

O meu corpo habituava-se e estabelecia um ritmo próprio, as dores passaram a ser dormentes e os pulmões começaram a expandir. Apesar da brisa e do friozinho que se sentia, eu suava, transpirava, a t-shirt colava-se ao corpo. Bebia água para a perder logo a seguir. Dei comigo a murmurar, praguejar... Queixava-me, suspirava...

De repente, tive de deixar passar um grupo. Homens e mulheres, franzinos, mais pequenos que eu e que subiam quase em corrida. Nas costas transportavam os mais variados e diversos utensílios, desde panelas, lençóis, comida, óleo e garrafas de coca-cola. Muitos deles, equilibravam-se com o peso distribuído pela cabeça. O guia explicava-nos que eram eles que levavam as provisões até às pousadas. Faziam o caminho às vezes 2 vezes por dia, subida e descida (acrescentei na minha mente, por um capricho de turistas, que não têm mais nada que fazer). A partir daí deixei-me de lamentações, era a primeira de lição de vida que o Kinabalu me dava.

De resto foram 5 horas com algumas paragens até chegar ao nosso local de dormida aos 3270m. Sentia-me exausta, a ausência de oxigénio já se ressentia no meu corpo. Vi o meu primeiro pôr-do-sol em terra mas perto das nuvens, apercebi-me que nunca tinha estado a uma altitude tão grande sem ser num avião. 7.30 da noite e despedi-me, deitei-me mas confesso que pouco dormi, talvez a excitação...

2h30 da manhã e alvorada. Equipada de lanterna e luvas e gorro dava então início ao derradeiro percurso, até ao topo do mundo como me prometiam. Tina liderava a caminhada e eu agradeci. Ela ia testando o caminho, as pedras e os degraus e eu seguia-a. A minha lanterna de cabeça dava-me um ar cómico, para não dizer fantasmagórico, mas como diria a colega que ma tinha emprestado: - I know you look stupid and everyone is laughing, but it will come very handy. You´ll see! Tinha razão, handy, indeed. Sem ela não sei como teria feito.

A partir daí foram 3 horas até ao topo. O objectivo era chegar ao nascer-do-sol, e daí a madrugada. Os degraus deram lugar a pequenos riachos, os riachos a ravinas. A minha lanterna dava-me noção apenas ao metro e meio seguinte e não mais. À frente via apenas pontos de luz que correspondiam a uma pessoa que se tinha proposto ao mesmo desafio que eu, estávamos todos no mesmo barco. Agarrada à corda, escalei rochas de granito, mas a montanha começava a revelar os seus picos. Passámos pelo check point e seria o nosso último contacto com a civilização, completamente deslocadas do mundo, duas cabinas telefónicas assumiam-se como estranhos corpos junto à rocha.

Dessas 3 horas lembro-me de algumas partes do percurso, da escalada, da pedra granítica, uma verdadeira rampa em direcção ao céu, dos andarilhos que a percorriam, criando um carreiro tal e qual formigas ou seriam pirilampos? Imagem esta que não esqueço, pontos de luz em direcção ao topo, espiral infinita mas um sinal de esperança. Lembro-me também dos meus pulmões que não me deixavam avançar rapidamente, julgo que a constipação também não. Dei comigo a parar nos útimos 300 m de altitude cada 200 passos. Tentava expandir a minha caixa torácica mas o meu porte franzino contraía-se com a dor.

Perdi a Jackie e a Charlotte à minha frente, a Tina tinha ficado para trás com o guia. Era eu e só eu e o raio da montanha. Respirei fundo e lembrei-me: - Just do it! slogan irónico no local em que me encontrava... À medida que me aproximava do topo, o céu ia clareando, escalei as últimas rochas e o sol nascia. Olhei para trás e os pontos de luz davam lugar a fisionomias. Não sei descrever a sensação que é estar no topo duma montanha rodeada de nuvens. O sol, dum laranja, rosa, parecia fogo. O ar frio fazia-me tremer, tremia de frio, de exaustão, da t-shirt que escorria suor mais uma vez. O topo com a placa indicava-me que estava nada mais nada menos que a 4095.2 m. Sentei-me e tentei absorver o momento. The sky is the limit e eu tinha chegado ao céu.

Lembrei-me do livro 'Touching the Void' recomendado por Will há pouco mais dum ano atrás. Livro este que fala do desafio épico de dois montanhistas e dum acidente que os leva a separar e lutar pela vida. Lembro-me de achar que era loucura alguém subir uma montanha simplesmente porque sim e arriscar a vida também porque sim. E no fundo ali estava eu, porque sim, porque num momento de pânico não quis ficar sozinha e ser deixada para trás. Não sabia porque o tinha feito, lá está, porque sim, mas no entanto sentia-me feliz por o ter feito.

Enquanto eu me perdia em mim, o topo densificava-se em população, imaginem 70 andarilhos a quererem tirar a mesma foto, no mesmo sítio e o cume, cheio de pedras, dava realmente pouco lugar a descanso. Encostei-me a um canto e observei. Não pude deixar de rir quando um turista que vinha a observar nos últimos 2 min chega ao topo e tenta encher os pulmões de ar fresco. A desilusão espalhada na cara: - Smells like someone is smoking!!! No preciso momento Charlotte deleitava-se com um cigarro. - I had to! - sorria-me. Soltei uma gargalhada. 20 minutos tinham passado e o frio obrigava-me a descer.

Tínhamos pela frente a descida, os 27% de declive mas na direcção errada e sem objectivo que não o descer, isto aliada à claridade que nos deixava ver o que tínhamos subido, e realmente foi esta a parte mais difícil do percurso. O cansaço da subida, a lama que nos fazia escorregar pelos degraus, os 2229 m sentidos nos joelhos e articulações. 6 horas de pressão nos calcanhares e para terminar, a agora subida contrariando o esforço nos músculos. Aí as minhas pernas estouravam e eu já deixava de sentir as dores... Adianto-vos já que foram 4 dias de pernas dormentes e isto já com analgésicos, provavelmente o esforço físico mais violento a que predispus o meu corpo.

O corpo pagou por isto, mas digo-vos realmente, todos tinham razão, vale a pena. E não é realmente pela vista exterior, mas por aquilo que descobri como emoção interior; no fundo estar no topo do mundo, é estar dentro de nós...



Chegada ao parque


Fauna local

Pôr-do-sol nas nuvens

Nascer do Sol no Topo do Mundo










Topo do Mundo

2 Comments:

Blogger cardos said...

É tão boa essa sensação. O que custa são mesmo as dores nas pernas, mas valeu a pena!

12:42  
Blogger Billy said...

Que espectáculo!

Parabéns pela coragem e pelo relato tão detalhado. Adorei!

22:52  

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